Leonera: uma mãe. Uma criminosa. Uma leoa.A Argentina, considerada a maior rival do Brasil, ao menos nos campos de futebol, alimenta em Buenos Aires, a capital do país, a grande vontade e possibilidade de ser um país com ares europeus, talvez devido ao seu clima frio, as folhas de árvores tipicamente outonais, e um povo que sabe fazer valer seus direitos e deveres, especialmente na política nacional.
Apesar de se distanciar das raízes latinas, a Argentina encontra, na arte de fazer um cinema mais humano, uma forma de agregar suas características sul-americanas, inclusive em semelhanças com o nosso Brasil, às características européias impregnadas em sua terra.
Como fruto desse estreitamento de laços culturais, damos de encontro com um excelente resultado intitulado Leonera (Leonera, ARG, 2008), o último exemplar porteño lançado no Brasil, já disponível em DVD.
No enredo, Julia (a excepcional Martina Gusman), uma garota de classe média, acorda em seu apartamento e se vê em meio a uma terrível cena: há sangue por toda parte, Nahuel, seu namorado, está morto, Ramiro – econômica porém essencial participação do brasileiro Rodrigo Santoro, um amigo em comum do casal ainda respira, e ela não se lembra exatamente do que aconteceu na noite anterior. A resolução do caso? Julia vai parar na prisão.
Deste ponto em diante, o diretor Pablo Trapero (marido de Martina), utiliza o sistema carcerário nacional como mote principal para Leonera – em espanhol, o local onde os leões são fechados, no caso, as leoas.
Busca nos brasileiros Carandiru (dirigido pelo argentino Héctor Babenco), e O prisioneiro da grade de ferro, a crueza de uma personagem viver longe de uma liberdade que escorre por entre os dedos, ao mesmo tempo em que encontra no cinema europeu, a dubialidade entre drama e delicadeza, já que, ao passar por uma inspeção, Trapero nos mostra uma situação ainda mais profunda de Julia: ela está grávida.
Enquanto espera o depoimento de Ramiro, crucial para sua liberdade, sua nova morada é um pavilhão diferenciado, destinado apenas a mulheres grávidas, ou que possuem filhos menores de quatro anos. Muros cinzentos pintados de lápis coloridos formam um paradoxo visual. Choca, ao mesmo tempo em que alimenta a vontade daquelas leoas de protegerem sua prole do pouco que as cerca.
Após a inserção carcerária de protagonista, é impressionante como Trapero consegue conduzir Martina a dividir Julia em três fases distintas, que refletem não apenas no psicológico da personagem, como no físico da intérprete. Ela se choca com o início, se acostuma com o meio e se transforma ao final, tudo isso presenciado por Marta (Laura Garcia, também em ótima atuação), uma mulher que estampa no rosto a difícil experiência de já ter criado dois filhos nas mesmas condições que a novata, experiência esta que automaticamente torna a velha leoa uma mentora.
Apesar de lutar para ser alguém melhor, um grande problema de Julia é estar sempre rodeada de pessoas egoístas, como Ramiro que guarda para si mesmo o que houve na noite do assassinato ou até mesmo sua mãe, que arranca da garota o pequeno Thomas, seu único ponto de equilíbrio no momento.
É exatamente neste ponto final, neste ponto de equilíbrio, que Julia encontra a solução de seu maior problema atual: não caber em mundo algum. Não sabe nem qual é seu novo eu, e nem ao menos se caberia em si mesma. Para isso, ela deixa “apenas” todo seu antigo mundo para trás, e se refugia em uma nova selva. Uma selva ainda virgem, porém pronta para ser desbravada por uma leoa sedenta por liberdade.

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