quarta-feira, 1 de julho de 2009

Crítica de cinema: Milk - A voz da igualdade

Milk – A voz da igualdade: o importante é existir plenamente.

O preconceito e a discriminação são reações que podemos considerar como “elementos de série” de toda e qualquer sociedade existente. A secessão existe em tudo que nos circunda. O simples fato de nos identificarmos com um certo tipo de música, um estilo diferenciado na moda, ou o trabalho que realizamos, nos faz diferentes uns dos outros.

Separar negros e brancos, homens e mulheres, gordos e magros, homossexuais e heterossexuais, vai além da secessão que descrevi acima, apenas pela intensidade com a qual ela é aplicada.

No cinema, o preconceito já foi explorado das mais diversas formas. Fosse no curioso Homem Elefante do bizarro diretor David Lynch, em que um homem com deformação congênita era atração principal num freak-show, ou na primeira e belíssima incursão de Spielberg no drama A cor púrpura, onde a personagem de Whoopi Goldberg sofria abusos constantes por ser mulher e negra, o cinema explorava na fraqueza e opressão a melhor maneira de criticar uma sociedade que transbordava em hipocrisia.

Após anos fazendo cinema alternativo e muitas vezes incompreendido pela grande massa, o diretor norte-americano Gus Van Sant (Gênio indomável, Elefante e Paranoid Park), finalmente se colocou no olho do furacão de Hollywood, para dirigir a biografia do primeiro gay assumido eleito para um cargo público nos Estados Unidos, resultado que podemos conferir em Milk – A voz da igualdade (Milk, EUA, 2009), título já disponível para locação no Brasil.

No início dos anos 70, Harvey Milk (atuação que rendeu a Sean Penn o Oscar de melhor ator deste ano, e segundo de sua carreira) era apenas um nova-iorquino recém chegado à cidade de São Francisco, para realizar o sonho de abrir uma loja de revelação fotográfica, a Castro Câmera, no bairro operário Castro, hoje grande reduto GLS da cidade americana.

A delonga não foi grande até Milk, juntamente com Scott, seu namorado (papel de James Franco, Homem-aranha) encontrarem grandes barreiras a serem transpassadas na vizinhança do Castro. Boicotado e pressionado pelos outros comerciantes, o protagonista via em um simples beijo na boca em frente a sua loja, a forma mais expressiva de confrontar e fazer valer seu direito de igualdade na sociedade da época.

Inevitavelmente, os outros homossexuais acabaram vendo no lojista um representante em potencial para as causas gays que se restringiam apenas em não permitir que a policia local caçasse e exterminasse “seu povo” impunemente. No cargo de supervisor distrital (algo como um vereador no Brasil), Milk poderia ir além e confrontar, principalmente o que foi chamada de proposição 6, um plebiscito que sugeria uma lei para demitir, por justa causa, professores homossexuais das escolas americanas.

Gus Van Sant, que não esconde a sua homossexualidade, dirigi aqui sua segunda biografia – a primeira foi Últimos dias, sobre a vida de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, e parece se aperfeiçoar ao mesclar o drama íntimo e pessoal da pessoa Harvey Milk com a breve história do político apenas conhecido como Milk.

Mas o que seria de um diretor exemplo sem um ator do mesmo garbo? O talento de um ator se torna realmente inigualável quando seu personagem consegue se sobrepor ao rosto conhecido, e é exatamente isso que Van Sant consegue extrair de Sean Penn em Milk, tanto física quanto emocionalmente: a entrega soberba do ator.

Para contrapor o elemento comum nos filmes de Gus Van Sant, a rapidez com que a vida passa e se desfaz, ressaltemos que, apesar de Milk – A voz da igualdade se cobrir por um véu negro, e sua cena final não nega isso, assim como o arrepio nos braços, a breve história do político deixa a esperança de que, com respeito, a melhor parte da vida, é o prazer em ser e existir por completo.


Com Emile Hirsch, Diego Luna e Josh Brolin.

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